
Eis que ao entrar no blog para checar como andam as visitas, dou de cara com um novo comentário. Para quem entra aqui sempre, creio nunca ter sido mistério que eu modero os comentários feitos – é um blog público, está na internet, mas é meu; Não vou fazer disso aqui, que pra mim é algo prazeroso, um canal aberto para polêmicas idiotas ou xingamentos homofóbicos gratuitos, como de vez em quando encontramos por aí.
Daí a minha surpresa ao ver um comentário sobre um post feito no espaço de outro post. Em primeiro lugar, sim, eu sou metódico, chato, e odeio esse tipo de coisa (risos). Além disso, o comentário basicamente se dedicava a me “atacar”, questionando meu “O que é que há, velhinho?” anterior – aquele sobre um amigo meu que era apenas uma bunda, você se lembra? Pra finalizar, o comentário não estava assinado. Ou melhor, estava – por “Anônimo”.
Acho esse tipo de postura um tanto quanto ridícula, ainda mais nesses casos, quando a pessoa se aproveita do anonimato para despejar críticas sem direito à resposta. Como já disse antes, este é o meu blog e está longe de ser uma democracia, portanto eu decido o que fazer. Podia ter ignorado o comentário e este post não existiria, mas não sou escroto a esse ponto... Rejeitei a publicação do comentário, não sem antes salvá-lo – para que ninguém pense que eu estou inventando tudo isso. Mas o teor da mensagem me fez pensar mais do que o autor, provavelmente, imaginava:
Acho que existe um preconceito contra os passivos. Lendo um "post" seu anterior, achei uma certa acidez ao dizer que o rapaz era apenas uma "bunda". Sou passivo, leio, ouço música, sou visto pelos amigos como "o intelectual" (outro rótulo) e sempre busquei relacionamentos sérios. Entretanto, por ser classificado como "afeminado" (mais um rótulo), sempre ouço respostas do tipo "você é 10, pena que eu não curta afeminados", "admiro sua inteligência, mas gostaria de um cara mais másculo" ou "gostaria de ser seu amigo, acho que você é "do bem", "supercabeça", mas não rola química porque tenho dificuldade com seu jeito". Daí porque prefiro ficar sozinho. Então, NÃO é verdade que passivos sejam apenas "bundas". Sou passivo afeminado e não pratico sexo, justamente porque não quero ser coisificado.
E deixo uma reflexão: se o passivo fala sobre assuntos intelectuais, ele é "o esnobe"; se ele mostra fotos das nádegas, só se vê como uma "bunda"? Realmente acho que falta generosidade e até caridade de espírito ao se olhar os passivos. Felizmente, já há discussões em blogs de Psicologia sobre a necessidade da releitura no meio GLBTT do passivo enquanto ser humano.
A primeira coisa que me chamou a atenção na mensagem foi uma certa revolta que parecia emanar dela. A segunda foi que a pessoa que leu o post e escreveu o comentário não entendeu absolutamente nada do que eu disse. Primeiro: generalizou a coisa toda, sem perceber de que aquele texto ali era direcionado a uma única pessoa, ainda que outras pudessem se ver refletidas. Segundo: me acusou de ter preconceito contra os passivos, quando no próprio texto eu já contra-argumentava isso (até por ser ativo, como é que eu vou ter preconceito contra passivos?). Terceiro, e creio eu, mais importante: ele correlacionou “passividade” com “afeminação”.
Então vamos por partes: meu caro anônimo, creio que você tem muito o que trabalhar em si mesmo. Você diz que tem orgulho de ser quem é, mas pelas suas palavras eu entendo justamente o contrário – você não se aceita 100%. Quanto ao fato de ter ficado revoltado com o texto, não sei, mas talvez seja porque tenha se visto refletido em algumas das atitudes que eu questionei ali. E por último, e mais importante: ser passivo NÃO implica em ser afeminado. Nem ser passivo implica em ser uma pessoa menor. Aliás, até agora estou tentando entender o que você quis dizer com “passivo enquanto ser humano”...
Uma das pessoas mais esnobes que eu já conheci, aliás, foi um colega de faculdade. Ronaldo. Hetero, do tipo que se acabava no banheiro folheando a Playboy, mas estupidamente insuportável. Do tipo espalha-rodinha. Até que o pessoal começou a evitá-lo, não sem motivo: o cara tinha análises dialéticas até para o comportamento da mocinha da novela! Coincidentemente, uma época o apelido dele ficou sendo Pê. Não de passivo, até porque ele não era gay. Mas de pedante, mesmo. Por outro lado, estudava comigo também o Paulo, gay assumidíssimo, militante, afeminado e desbocado no último grau. E era o tipo do cara que a gente queria em todas as situações, de um bate-papo no intervalo àquela festa pra lá de esperada. Por quê? Porque sabia deixar a gente à vontade. E, até onde me lembro, nunca teve problemas para arrumar namorados, longe disso – tanto que há uns 5 anos ele casou e foi morar no sul.
Outra situação que prova que uma coisa não tem nada a ver com a outra: Marcos, namorado do Rodrigo, amigos meus do Rio. Basicamente, o Marcos é aquele tipo de cara que você sabe que é gay só de olhar – ou você conhece pelo menos 5 pessoas que sairiam com um boá de plumas azuis na rua, num fim de tarde? Enquanto que o Rodrigo é do tipo Barbie/Urso, peludo, malhadão (desculpe, galera ursina, eu não sei o termo exato que se aplicaria neste caso), a um passo de ser brucutu. Se amam às mil maravilhas. E um dia, numa festa, num jogo da verdade, a galera ainda teve que segurar o queixo quando o Rodrigo confessou que ele era o passivo do relacionamento. Sim, meu caro: o Marcos, afeminado, assumido, é quem era o ativo da história.
Ainda: passivos não são somente bundas, longe disso. Embora alguns – feliz ou infelizmente – se comportem assim, a maioria são pessoas absolutamente normais. Alberto, um dos meus melhores amigos, é passivo e (ainda que levemente) afeminado. Isso não impede que eu o chame constantemente pra sair, pra almoçar, pra jantar, pra conversar, pra fazer compras, nem de que eu fale o tempo todo que ele é um irmão que eu não tive. Mostrar fotos das “nádegas” também não é crime – atire a primeira pedra quem nunca mostrou uma foto do pau ou da bunda na internet. O problema é quando você se reduz a somente isso.
Então, meu caro, na situação que estamos discutindo acredito que quem se exclui acaba sendo você mesmo. Quanto a ser afeminado, é algo que você vai ter que aprender a lidar com isso e, principalmente, com a reação das pessoas – há quem goste e há quem não goste. Frustrações fazem parte da vida, sabe? Mas no fim das contas acho que é você quem está sendo preconceituoso, em relação a todas as outras pessoas. Então quem não curte você automaticamente é um imbecil? Se for assim, lamento, mas você se acha a última Coca-Cola do deserto.
Para encerrar: ser tachado de esnobe porque fala de assuntos intelectuais, ser recusado para um relacionamento porque é afeminado, ser visto como só uma bunda (ou um pau) por conta de fotos... Nada disso tem a ver com o que você faz ou deixa de fazer entre quatro paredes. Tem a ver, isso sim (inclusive e principalmente no caso das fotos) com postura. Maneiras de agir e encarar a vida, e se relacionar com os outros. E deixar que te admirem por aquilo que você é, sem ter que ficar mostrando seus atributos – às vezes até forçadamente – para provar que você é melhor em pelo menos algum quesito.
Talvez, agora, o momento deva ser aproveitado para um pouco mais de reflexão.
Daí a minha surpresa ao ver um comentário sobre um post feito no espaço de outro post. Em primeiro lugar, sim, eu sou metódico, chato, e odeio esse tipo de coisa (risos). Além disso, o comentário basicamente se dedicava a me “atacar”, questionando meu “O que é que há, velhinho?” anterior – aquele sobre um amigo meu que era apenas uma bunda, você se lembra? Pra finalizar, o comentário não estava assinado. Ou melhor, estava – por “Anônimo”.
Acho esse tipo de postura um tanto quanto ridícula, ainda mais nesses casos, quando a pessoa se aproveita do anonimato para despejar críticas sem direito à resposta. Como já disse antes, este é o meu blog e está longe de ser uma democracia, portanto eu decido o que fazer. Podia ter ignorado o comentário e este post não existiria, mas não sou escroto a esse ponto... Rejeitei a publicação do comentário, não sem antes salvá-lo – para que ninguém pense que eu estou inventando tudo isso. Mas o teor da mensagem me fez pensar mais do que o autor, provavelmente, imaginava:
Acho que existe um preconceito contra os passivos. Lendo um "post" seu anterior, achei uma certa acidez ao dizer que o rapaz era apenas uma "bunda". Sou passivo, leio, ouço música, sou visto pelos amigos como "o intelectual" (outro rótulo) e sempre busquei relacionamentos sérios. Entretanto, por ser classificado como "afeminado" (mais um rótulo), sempre ouço respostas do tipo "você é 10, pena que eu não curta afeminados", "admiro sua inteligência, mas gostaria de um cara mais másculo" ou "gostaria de ser seu amigo, acho que você é "do bem", "supercabeça", mas não rola química porque tenho dificuldade com seu jeito". Daí porque prefiro ficar sozinho. Então, NÃO é verdade que passivos sejam apenas "bundas". Sou passivo afeminado e não pratico sexo, justamente porque não quero ser coisificado.
E deixo uma reflexão: se o passivo fala sobre assuntos intelectuais, ele é "o esnobe"; se ele mostra fotos das nádegas, só se vê como uma "bunda"? Realmente acho que falta generosidade e até caridade de espírito ao se olhar os passivos. Felizmente, já há discussões em blogs de Psicologia sobre a necessidade da releitura no meio GLBTT do passivo enquanto ser humano.
A primeira coisa que me chamou a atenção na mensagem foi uma certa revolta que parecia emanar dela. A segunda foi que a pessoa que leu o post e escreveu o comentário não entendeu absolutamente nada do que eu disse. Primeiro: generalizou a coisa toda, sem perceber de que aquele texto ali era direcionado a uma única pessoa, ainda que outras pudessem se ver refletidas. Segundo: me acusou de ter preconceito contra os passivos, quando no próprio texto eu já contra-argumentava isso (até por ser ativo, como é que eu vou ter preconceito contra passivos?). Terceiro, e creio eu, mais importante: ele correlacionou “passividade” com “afeminação”.
Então vamos por partes: meu caro anônimo, creio que você tem muito o que trabalhar em si mesmo. Você diz que tem orgulho de ser quem é, mas pelas suas palavras eu entendo justamente o contrário – você não se aceita 100%. Quanto ao fato de ter ficado revoltado com o texto, não sei, mas talvez seja porque tenha se visto refletido em algumas das atitudes que eu questionei ali. E por último, e mais importante: ser passivo NÃO implica em ser afeminado. Nem ser passivo implica em ser uma pessoa menor. Aliás, até agora estou tentando entender o que você quis dizer com “passivo enquanto ser humano”...
Uma das pessoas mais esnobes que eu já conheci, aliás, foi um colega de faculdade. Ronaldo. Hetero, do tipo que se acabava no banheiro folheando a Playboy, mas estupidamente insuportável. Do tipo espalha-rodinha. Até que o pessoal começou a evitá-lo, não sem motivo: o cara tinha análises dialéticas até para o comportamento da mocinha da novela! Coincidentemente, uma época o apelido dele ficou sendo Pê. Não de passivo, até porque ele não era gay. Mas de pedante, mesmo. Por outro lado, estudava comigo também o Paulo, gay assumidíssimo, militante, afeminado e desbocado no último grau. E era o tipo do cara que a gente queria em todas as situações, de um bate-papo no intervalo àquela festa pra lá de esperada. Por quê? Porque sabia deixar a gente à vontade. E, até onde me lembro, nunca teve problemas para arrumar namorados, longe disso – tanto que há uns 5 anos ele casou e foi morar no sul.
Outra situação que prova que uma coisa não tem nada a ver com a outra: Marcos, namorado do Rodrigo, amigos meus do Rio. Basicamente, o Marcos é aquele tipo de cara que você sabe que é gay só de olhar – ou você conhece pelo menos 5 pessoas que sairiam com um boá de plumas azuis na rua, num fim de tarde? Enquanto que o Rodrigo é do tipo Barbie/Urso, peludo, malhadão (desculpe, galera ursina, eu não sei o termo exato que se aplicaria neste caso), a um passo de ser brucutu. Se amam às mil maravilhas. E um dia, numa festa, num jogo da verdade, a galera ainda teve que segurar o queixo quando o Rodrigo confessou que ele era o passivo do relacionamento. Sim, meu caro: o Marcos, afeminado, assumido, é quem era o ativo da história.
Ainda: passivos não são somente bundas, longe disso. Embora alguns – feliz ou infelizmente – se comportem assim, a maioria são pessoas absolutamente normais. Alberto, um dos meus melhores amigos, é passivo e (ainda que levemente) afeminado. Isso não impede que eu o chame constantemente pra sair, pra almoçar, pra jantar, pra conversar, pra fazer compras, nem de que eu fale o tempo todo que ele é um irmão que eu não tive. Mostrar fotos das “nádegas” também não é crime – atire a primeira pedra quem nunca mostrou uma foto do pau ou da bunda na internet. O problema é quando você se reduz a somente isso.
Então, meu caro, na situação que estamos discutindo acredito que quem se exclui acaba sendo você mesmo. Quanto a ser afeminado, é algo que você vai ter que aprender a lidar com isso e, principalmente, com a reação das pessoas – há quem goste e há quem não goste. Frustrações fazem parte da vida, sabe? Mas no fim das contas acho que é você quem está sendo preconceituoso, em relação a todas as outras pessoas. Então quem não curte você automaticamente é um imbecil? Se for assim, lamento, mas você se acha a última Coca-Cola do deserto.
Para encerrar: ser tachado de esnobe porque fala de assuntos intelectuais, ser recusado para um relacionamento porque é afeminado, ser visto como só uma bunda (ou um pau) por conta de fotos... Nada disso tem a ver com o que você faz ou deixa de fazer entre quatro paredes. Tem a ver, isso sim (inclusive e principalmente no caso das fotos) com postura. Maneiras de agir e encarar a vida, e se relacionar com os outros. E deixar que te admirem por aquilo que você é, sem ter que ficar mostrando seus atributos – às vezes até forçadamente – para provar que você é melhor em pelo menos algum quesito.
Talvez, agora, o momento deva ser aproveitado para um pouco mais de reflexão.








