sábado, 17 de outubro de 2009

O que é que há, velhinho?

Eis que ao entrar no blog para checar como andam as visitas, dou de cara com um novo comentário. Para quem entra aqui sempre, creio nunca ter sido mistério que eu modero os comentários feitos – é um blog público, está na internet, mas é meu; Não vou fazer disso aqui, que pra mim é algo prazeroso, um canal aberto para polêmicas idiotas ou xingamentos homofóbicos gratuitos, como de vez em quando encontramos por aí.

Daí a minha surpresa ao ver um comentário sobre um post feito no espaço de outro post. Em primeiro lugar, sim, eu sou metódico, chato, e odeio esse tipo de coisa (risos). Além disso, o comentário basicamente se dedicava a me “atacar”, questionando meu “O que é que há, velhinho?” anterior – aquele sobre um amigo meu que era apenas uma bunda, você se lembra? Pra finalizar, o comentário não estava assinado. Ou melhor, estava – por “Anônimo”.

Acho esse tipo de postura um tanto quanto ridícula, ainda mais nesses casos, quando a pessoa se aproveita do anonimato para despejar críticas sem direito à resposta. Como já disse antes, este é o meu blog e está longe de ser uma democracia, portanto eu decido o que fazer. Podia ter ignorado o comentário e este post não existiria, mas não sou escroto a esse ponto... Rejeitei a publicação do comentário, não sem antes salvá-lo – para que ninguém pense que eu estou inventando tudo isso. Mas o teor da mensagem me fez pensar mais do que o autor, provavelmente, imaginava:

Acho que existe um preconceito contra os passivos. Lendo um "post" seu anterior, achei uma certa acidez ao dizer que o rapaz era apenas uma "bunda". Sou passivo, leio, ouço música, sou visto pelos amigos como "o intelectual" (outro rótulo) e sempre busquei relacionamentos sérios. Entretanto, por ser classificado como "afeminado" (mais um rótulo), sempre ouço respostas do tipo "você é 10, pena que eu não curta afeminados", "admiro sua inteligência, mas gostaria de um cara mais másculo" ou "gostaria de ser seu amigo, acho que você é "do bem", "supercabeça", mas não rola química porque tenho dificuldade com seu jeito". Daí porque prefiro ficar sozinho. Então, NÃO é verdade que passivos sejam apenas "bundas". Sou passivo afeminado e não pratico sexo, justamente porque não quero ser coisificado.

E deixo uma reflexão: se o passivo fala sobre assuntos intelectuais, ele é "o esnobe"; se ele mostra fotos das nádegas, só se vê como uma "bunda"? Realmente acho que falta generosidade e até caridade de espírito ao se olhar os passivos. Felizmente, já há discussões em blogs de Psicologia sobre a necessidade da releitura no meio GLBTT do passivo enquanto ser humano.

A primeira coisa que me chamou a atenção na mensagem foi uma certa revolta que parecia emanar dela. A segunda foi que a pessoa que leu o post e escreveu o comentário não entendeu absolutamente nada do que eu disse. Primeiro: generalizou a coisa toda, sem perceber de que aquele texto ali era direcionado a uma única pessoa, ainda que outras pudessem se ver refletidas. Segundo: me acusou de ter preconceito contra os passivos, quando no próprio texto eu já contra-argumentava isso (até por ser ativo, como é que eu vou ter preconceito contra passivos?). Terceiro, e creio eu, mais importante: ele correlacionou “passividade” com “afeminação”.

Então vamos por partes: meu caro anônimo, creio que você tem muito o que trabalhar em si mesmo. Você diz que tem orgulho de ser quem é, mas pelas suas palavras eu entendo justamente o contrário – você não se aceita 100%. Quanto ao fato de ter ficado revoltado com o texto, não sei, mas talvez seja porque tenha se visto refletido em algumas das atitudes que eu questionei ali. E por último, e mais importante: ser passivo NÃO implica em ser afeminado. Nem ser passivo implica em ser uma pessoa menor. Aliás, até agora estou tentando entender o que você quis dizer com “passivo enquanto ser humano”...

Uma das pessoas mais esnobes que eu já conheci, aliás, foi um colega de faculdade. Ronaldo. Hetero, do tipo que se acabava no banheiro folheando a Playboy, mas estupidamente insuportável. Do tipo espalha-rodinha. Até que o pessoal começou a evitá-lo, não sem motivo: o cara tinha análises dialéticas até para o comportamento da mocinha da novela! Coincidentemente, uma época o apelido dele ficou sendo Pê. Não de passivo, até porque ele não era gay. Mas de pedante, mesmo. Por outro lado, estudava comigo também o Paulo, gay assumidíssimo, militante, afeminado e desbocado no último grau. E era o tipo do cara que a gente queria em todas as situações, de um bate-papo no intervalo àquela festa pra lá de esperada. Por quê? Porque sabia deixar a gente à vontade. E, até onde me lembro, nunca teve problemas para arrumar namorados, longe disso – tanto que há uns 5 anos ele casou e foi morar no sul.

Outra situação que prova que uma coisa não tem nada a ver com a outra: Marcos, namorado do Rodrigo, amigos meus do Rio. Basicamente, o Marcos é aquele tipo de cara que você sabe que é gay só de olhar – ou você conhece pelo menos 5 pessoas que sairiam com um boá de plumas azuis na rua, num fim de tarde? Enquanto que o Rodrigo é do tipo Barbie/Urso, peludo, malhadão (desculpe, galera ursina, eu não sei o termo exato que se aplicaria neste caso), a um passo de ser brucutu. Se amam às mil maravilhas. E um dia, numa festa, num jogo da verdade, a galera ainda teve que segurar o queixo quando o Rodrigo confessou que ele era o passivo do relacionamento. Sim, meu caro: o Marcos, afeminado, assumido, é quem era o ativo da história.

Ainda: passivos não são somente bundas, longe disso. Embora alguns – feliz ou infelizmente – se comportem assim, a maioria são pessoas absolutamente normais. Alberto, um dos meus melhores amigos, é passivo e (ainda que levemente) afeminado. Isso não impede que eu o chame constantemente pra sair, pra almoçar, pra jantar, pra conversar, pra fazer compras, nem de que eu fale o tempo todo que ele é um irmão que eu não tive. Mostrar fotos das “nádegas” também não é crime – atire a primeira pedra quem nunca mostrou uma foto do pau ou da bunda na internet. O problema é quando você se reduz a somente isso.

Então, meu caro, na situação que estamos discutindo acredito que quem se exclui acaba sendo você mesmo. Quanto a ser afeminado, é algo que você vai ter que aprender a lidar com isso e, principalmente, com a reação das pessoas – há quem goste e há quem não goste. Frustrações fazem parte da vida, sabe? Mas no fim das contas acho que é você quem está sendo preconceituoso, em relação a todas as outras pessoas. Então quem não curte você automaticamente é um imbecil? Se for assim, lamento, mas você se acha a última Coca-Cola do deserto.

Para encerrar: ser tachado de esnobe porque fala de assuntos intelectuais, ser recusado para um relacionamento porque é afeminado, ser visto como só uma bunda (ou um pau) por conta de fotos... Nada disso tem a ver com o que você faz ou deixa de fazer entre quatro paredes. Tem a ver, isso sim (inclusive e principalmente no caso das fotos) com postura. Maneiras de agir e encarar a vida, e se relacionar com os outros. E deixar que te admirem por aquilo que você é, sem ter que ficar mostrando seus atributos – às vezes até forçadamente – para provar que você é melhor em pelo menos algum quesito.

Talvez, agora, o momento deva ser aproveitado para um pouco mais de reflexão.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Perdões explícitos

Já cantou o OneRepublic: "it's too late to apologize, it's too late"... Mas eu acho que devia um pedido de desculpas pelo sumiço aqui. Tive motivos para isso - e um deles foi um certo tédio de internet. Sabe quando de repente vem aquele enfado quilométrico? Pois é. Além disso, também aproveitei mais o tempo livre na companhia do namorado, em vez de deixá-lo assistindo televisão pra eu ficar escrevendo no blog (hehehe). Além disso II, passei a estudar novamente então o tempo realmente deu uma encurtada. Além disso III, meus horários de trabalho foram modificados e em alguns momentos o sono se tornou prioridade ímpar, superior a qualquer outra coisa.

Mas quem lê por aqui também sabe: eu não curto postar por postar. Tem que ter um tema bom, um motivo bacana, assunto e argumento. Prefiro ficar dias e dias sem escrever nada do que escrever só pra falar que não deixei o blog abandonado. Por conta disso, também, acabei dando uma pausa maior do que eu esperava: estava com um post em desenvolvimento, e recebi um comentário que me fez repensar o assunto e adiá-lo um pouco mais. O comentário se tornou, de certa forma, mais importante. Não pelo que foi dito nele, mas, justamente, pelo que não foi dito - e pelas conclusões que o autor me jogou na cara quando tentava se esconder. E acho que aconteceu o que ele não esperava: o assunto rendeu. Estou escrevendo sobre isso, e devo retomar a história em breve, nos próximos dias.

De qualquer maneira, só pra deixar registrado com uma bela gargalhada: o blog é meu, e isto aqui não é uma democracia! :-P

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Da infalibilidade do amor


“Não se afobe, não, que nada é pra já
O amor não tem pressa - ele pode esperar em silêncio...”
(Chico Buarque – Futuros Amantes)


O amor é infalível.

Mais do que infalível, o amor é exato. E paciente. E sabe melhor do que nós mesmos o que é que ele busca. Na verdade, o amor é simples, tão simples que nós não conseguimos admitir e fazemos de tudo para complicar. Complicamos para tentar entendê-lo – alegando, na seqüência, que é tudo delírio e que na verdade é impossível compreender esse sentimento tão claro e ao mesmo tempo tão obscuro.

Quase tudo já foi dito sobre o amor – uma busca básica no Google traz mais de 209.000.000 resultados à disposição do freguês. Aliás, nem é preciso ir tão longe, basta ligar o rádio; em dez minutos, pelo menos uma das músicas tocadas vai ter como tema o amor, em todas as suas vertentes. Do amor perdido ao amor que se espera, do amor vivido ao amor idealizado. Até músicas sertanejas falam de amor – bem, dor de corno não deixa de ser um efeito colateral do amor, certo?

Isso porque o amor é inerente a cada um de nós. E independente, também – a gente nunca se apaixona por quem gostaríamos. Aliás, até nos apaixonamos, mas nunca é programado, definido, racional. Racionalidade é algo que não existe em se tratando de amor. Todas as relações são traçadas em planos inconscientes, quase sobrenaturais, outras dimensões. E uma vez instalado, finito: não há saída. Ama-se – e ponto.

“Nada é pequeno no amor. Quem espera as grandes ocasiões para provar a sua ternura não sabe amar. (Angéline de Montbrun)

Nunca fui do tipo que acreditava em amor à primeira vista – aliás, eu nunca fui do tipo que acreditava muito em amor. Situação explicável por uma adolescência de rejeições, síndrome do patinho feio, conflitos e (ainda) todo o processo dificultoso de aceitação pelo qual a maioria dos gays passa. Mas o que é que explica quando, ao bater o olho em uma pessoa, o que invade o corpo é um sentir-se completo? Simples impulsos nervosos que partem dos olhos em direção ao cérebro, que ativa a rede de neurônios para a produção de serotonina, aceleração do pulso cardíaco, dilatação das pupilas?... Bobagem. Ok, a ciência pode explicar como é. Mas não explica o que é.

E quando vem, ele simplesmente vem. Às vezes até tentamos racionalizar a coisa toda. Tentamos fazer de conta que não gostamos de determinada pessoa. Procuramos motivos pra ficar com raiva. Nos distanciamos, tentando sem conseguir, querendo sem querer. Ou, ainda (na pior das hipóteses), simplificamos tudo dizendo que é puramente sexo, quando nenhuma dessas explicações convence. Na verdade, quando tentamos fazer isso, estamos lutando uma batalha perdida: o amor já está dentro da gente. E o que ele precisa é que baixemos a guarda um pouco, que deixemos de lutar contra nós mesmos... E então tudo, subitamente, volta a fazer sentido.

O amor é infalível.

“A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.”
(Roger de Rabutin)

Mas afinal de contas, o que é que realmente sabemos sobre o amor? Tudo e nada. Quanto mais afirmamos que o entendemos, menos compreendemos sua grandeza. No caso de gays, costuma ser ainda mais difícil – fomos educados para aprender que o amor com letra maiúscula se aplica entre homens e mulheres. Não se aplica a dois homens. Nem duas mulheres. Mas o sentimento vem e se instala, independentemente da vontade. E de repente temos dois homens (ou duas mulheres) recusando a admitir que se gostam, pensando que talvez serão menos mulheres (ou homens) por admitirem isso.

Entretanto, o próprio apóstolo afirma, na Bíblia: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou o címbalo que retine” (1 Coríntios, 13). Amar é essencial à humanidade, mas não é uma experiência sobre a qual algo de concreto possa ser dito. Amar é algo que deve ser experimentado. Deixar-se sentir aquela vontade quase dolorosa de ficar com alguém. Dar-se permissão para sentir saudades nos momentos mais inusitados. Ter um cheiro, um som, uma palavra que nos remeta, de imediato, à uma determinada pessoa. Aquela mesma, pela qual procuramos tanto tempo... e que ao encontrar, soubemos – lá no fundo do peito, de imediato – que o sentimento que dominava o corpo não podia ser outro a não ser amor.

O amor é infalível.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sinais do tempo

Se para algumas pessoas a chegada de um aniversário é encarada com terror, quanto isso pesa para os homossexuais? Se gay é sinônimo de festa, alegria, baladas constantes e corpos muito malhados, o que acontece à medida que os anos passam e as marcas do tempo se acentuam? Principalmente num mundo que, cada vez mais, valoriza a juventude – quão difícil é envelhecer sendo gay (ou mesmo bi)?

Envelhecer, para o homem, já é algo um tanto quanto complicado. Os primeiros sinais surgem a partir dos 30 anos. Dos 40 em diante, então, alguns dos “sintomas” se agravam: as rugas se aprofundam, a pressão arterial fica mais alta, a velocidade de processamento do cérebro diminui, se intensifica a perda de massa óssea. Terror dos terrores masculinos, o pênis também já não é mais tão viril como antigamente. Como agir, então, em um meio onde a juventude, a força e a beleza são moedas de troca absolutas – e escapar da maldição do envelhecimento?

“Envelhecer não depende de opção, creio que pode ser um problema pra todo mundo. Mas, para mim, particularmente, não – tudo na vida tem começo, meio e fim e é preciso aceitar essa realidade que não pode ser mudada” diz o advogado gaúcho Marco, de 46 anos. Mas e em relação a achar parceiros? Uma lenda corrente no meio gay afirma que depois dos 30 anos o gay desaparece. Segundo Marco, pura lenda mesmo. “É como o vinho, quanto mais velho melhor – os mais maduros são os preferidos. Já os mais jovens são fissurados em caras maduros, acho que tem a ver com a figura do pai. Maduros também geralmente curtem maduros, e afinal todo mundo um dia envelhece, né?”, questiona.

Mas nem todos pensam da mesma maneira. O químico Luciano, também 46 anos, campineiro, afirma justamente o contrário: “Eu diria que entre 20 e 30 anos você está no olimpo sexual para os interessados. Entre os 30 e 40 já desce alguns degraus... 40, acende uma luz amarela. Depois dos 45 vai pra UTI em caso terminal – e bateu nos 50, não tem jeito, está no cemitério”. Mais do que a sinceridade, o que parece incomodar mesmo é o preconceito do pessoal. De repente, o ano de nascimento parece doer mais do que se imaginava, e “a solução pra isso é fazer como todos, mentir”, afirma Luciano. Até porque as reações acabam sendo muito piores – e pobres de espírito - do que se pode imaginar. “Já falei minha idade real para alguns, mas não logo de cara. Se você fala de primeira, em 99% das vezes as pessoas param de teclar, deixam você falando sozinho. A idade pesa na avaliação – aliás, a impressão que eu tenho é que para os gays a embalagem é sempre mais importante que o presente”.

“Jovem é qualquer pessoa dez anos mais nova que a gente” (Danuza Leão)

Não há explicações plausíveis. Infelizmente, enquanto em sociedade prega-se o respeito e atenção aos mais velhos, até pela experiência que eles carregam (na Ásia, os idosos são reverenciados pelas próprias famílias), no meio gay a situação parece ser a inversa - em todos os sentidos. Que o diga Olavo, policial do interior paulista. Aos 37 anos, encontra dificuldades justamente porque... gosta de mais velhos. “Na medida em que eu fui ficando mais velho encontrar parceiros se tornou um problema, nunca encontro os que me agradem. Gosto de homens mais velhos, másculos, tipo casados... E em geral os mais velhos preferem pirralhos”. Vai entender. Mas esse tipo de interesse rola mesmo, e prova disso é a experiência vivida por Eduardo, analista de sistemas de São José dos Campos, que aos 19 anos ficou com um homem de 55. “A gente se conheceu do nada em um bar, ficamos conversando e fui parar na casa dele. Ele era charmoso, isso ajudou muito... Mas nem lembro direito do que fizemos. De qualquer maneira, foi bacana, ou eu teria deletado completamente da memória”. Opa, mas então como ficamos? Pesa ou não pesa? Um setentão teria chances com o analista de 30? “Olha, eu não costumo descartar só pela idade... Pesar, pesa, mas não pela quantidade de anos, e sim pela impressão que a pessoa passa. Se for uma pessoa com espírito jovem, animada, não tem problema. Mas se for alguém com a expressão ‘cansada da vida’, acho que me assusta um pouco”, diz.

Já o administrador de empresas João, de Limeira, diz não se importar com opiniões alheias. “Minha idade não chega a ser um empecilho... Sempre digo que tenho 42 anos, pergunto antes se rola, tento me mostrar na webcam para não criar falsas ilusões. Mas tem gosto pra tudo: tem carinhas novos que curtem maduros, tem mais velhos que curtem mais novos...”. Opinião semelhante à do advogado cuiabano Fábio, 34 anos, que afirma ter mercado para todos os gostos. “Eu sempre gostei de pessoas da minha faixa de idade, não acho que ser velho e gay seja mais complicado. Espero que quando tiver 60 anos eu goste de um senhor charmoso de 60 anos! Eu acho que na verdade a idade pesa um pouco porque pessoas na mesma faixa de idade tendem a ter pensamentos semelhantes, vivem em momentos semelhantes, e isso faz diferença na hora de pensar em um relacionamento mais estável e com planos para o futuro”, pondera.
“Batidas na porta da frente/é o tempo...”
(Aldir Blanc/Cristóvão Bastos)

Mas se todos envelhecemos, será verdade que “panela velha é que faz comida boa”? Marco diz que sim: “Um militar que transou comigo recentemente – ele com 32 anos – ficou louco e não sai do meu pé (risos). Mas veja bem, a foda não é só um pau na bunda, né? É todo um conjunto de coisas, inclusive a atração de um pelo outro”. Considerando este ponto – e os diversos sites pornôs na internet oferecendo fotos e vídeos de homens mais velhos, com direito inclusive a cabelos brancos e muitas rugas – é fácil admitir: não é falta de mercado nem de pessoas interessadas. Partindo daí, a única conclusão possível a que se chega é que não se trata apenas de uma questão de idade, mas de caráter, respeito e – também – as tão criticadas futilidade e promiscuidade geralmente relacionadas ao mundo gay.

“Eu quero encontrar alguém para me completar, mas às vezes acho que isso não vai acontecer”, reclama Fabio. “Queria um amigo, brother, gente boa, e às vezes parece que isso não existe! Será que o carma de quem é gay é solidão?”, questiona. E Luciano complementa: “Como a maioria busca relações de curto prazo, não é preciso se incomodar em conhecer a pessoa além das dimensões do pinto ou da curvatura da bunda, o que conta é só a fachada”, afirma. E lamenta não por si, mas por todos: “É uma pena, cara, que as relações sejam tão fúteis. Independentemente da idade, gostar de alguém é uma experiência maravilhosa”.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O que é que há, velhinho?

No msn, um amigo meu pergunta se eu estou muito ocupado pra teclar. Respondo que não e, ato contínuo, ele desanda a chorar as pitangas – que não consegue namorar ninguém, que desde que o último relacionamento acabou há oito anos ninguém mais quis algo pra valer, que o povo na internet só procura sexo... Acho que é mais fácil transcrever parte da coisa toda aqui:

RodrigoPas diz: Pô, todo mundo namora, todo mundo arruma alguém pra sair, companhia pra ficar junto, e eu parece que sou encarado só como uma bunda. Na net o povo me canta só pra transar, topam conhecer, rola legal, mas é eu pensar na possibilidade de rolar algo mais e pronto – tô sozinho, largado e muitas vezes bloqueado. Caramba, o que acontece comigo???

Acabou que ele precisou sair da net e eu nem sequer tive tempo de responder. Mas como ele lê o blog – e como já ouvi esse tipo de reclamação outras vezes – acho que posso responder por aqui e ainda ser útil a uma galera. Aliás, se bobear vou até dar início a uma “coluna”. Nome? Hã... A única coisa que me passa é ao estilo Pernalonga - “O que é que há, velhinho?”. Vai ser meio de-vez-em-quandária, mas está valendo. De relacionamentos a saúde, respondo sobre o que precisar. Da melhor forma possível. Ou quase. :-P

Mas voltando ao assunto do dia: Rodrigão bottom boy, o que acontece contigo é simples! O povo te encara só como uma bunda porque é assim que você se apresenta: uma bunda. A começar pelo seu nick no msn. Ou aquele “Pas” é sinal de que você é um semi-analfabeto que luta pela “pas” mundial? Não, obviamente. Passivo. Gosta de dar. A procura de alguém que converse com você e tenha um “Atv” no nick. Meu caro, você é uma bunda.

Nada contra gostar de sexo – eu gosto, você gosta, todo mundo gosta, da rainha da Inglaterra (quer dizer, há controvérsias) aos seus avós (do contrário você não estaria me perguntando essas coisas). Nem nada contra gostar de dar – eu não gosto, mas justamente por conta disso vou em busca de quem gosta, e o que seria do azul se todos gostassem do amarelo? Mas enfim, problemas em relação ao sexo geralmente só aparecem em uma situação: quando toda sua vida passa a girar em torno dele. E é isso que tem acontecido. Você entra na internet com um objetivo claro: caçar. Como você pretende que um relacionamento surja a partir de uma trepada, por mais que ela tenha sido uma mega-ultra-super-trepada?

Namoros, rolos, relacionamentos surgem a partir de descobertas – de apreender o que existe em comum/diferente entre os dois, e o que um pode acrescentar ao outro. É o tipo de coisa que, infelizmente, não há outro jeito de fazer a não ser por meio de uma boa conversa. E aí pode ser durante um passeio, uma ida ao shopping, caminhada na rua, qualquer coisa. Menos no quarto, quando tudo o que você consegue falar é “mais, mais, mais!”, e ainda assim abafado pelo ruído da sua cabeça batendo contra a cabeceira da cama (e os tapas na sua bunda).

Você reclama que seus perfis na internet não atraem ninguém interessado em algo mais sério, e os caras para quem você manda mensagem – e que estão em busca de relacionamento - nem se dão ao trabalho de responder. Ok; Em primeiro lugar, 90% dos homens que estão em sites e realmente procuram por relacionamento expõem fotos do rosto e corpo, raramente em situações eróticas. Nos seus 3 ou 4 perfis, suas fotos são as mesmas: closes da sua bunda, fotos nu.

Outra: você sai? Até onde eu me lembro, a última vez que você disse que ia para a balada o alvo era a The Week, porque queria “conhecer o dark room de lá”. Teatro, não gosta. Livrarias, não lê. Música, baixa pela internet... Não sobra lugar nenhum! Restaurantes são o tipo do lugar em que você vai com um objetivo definido: comer, ops, se alimentar. Não é o lugar para ficar paquerando, com a boca cheia de comida. Cinema, então... É tão fácil conhecer gente ali, né? No escuro, de olhos fixos na tela à frente, sem olhar pros lados e sem poder conversar. Super, super.

Então o conselho é o seguinte: quer namorar? Saia da internet e passe a viver um pouco mais no mundo real, onde existem pessoas – ou continue na internet, mas mude sua estratégia de rede. Nada contra conhecer gente pela web, isso é algo que a tecnologia trouxe e não vai acabar (aliás, muitos casamentos já rolaram por conta disso). O problema é a abordagem que se faz daquilo a que se pretende.

Você quer alguém para um relacionamento a longo prazo? Pense no que pode oferecer como pessoa, e não como objeto sexual. “Ah, mas e se a gente não se der bem na cama?”. Ok, esse é um risco que se corre, e muito provavelmente você vai ter que fazer algumas tentativas antes de encontrar o homem da sua vida. Mas achar que vai conhecer alguém, ter uma foda fenomenal e a partir daí entrar num casamento – puah, ilusão. Nem putas acreditam mais nessa lenda. As pessoas ainda se amam APESAR do sexo, e não por causa dele.

Afinal de contas, é a convivência que vai manter vocês dois juntos. A cumplicidade, o carinho, a preocupação, os pequenos gestos. Se não houver isso, nem uma cama king-size feita sob encomenda conseguirá manter o relacionamento. E você continuará sendo uma bunda. Por mais que possa ser excelente – mas, ainda assim, apenas uma bunda.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Motivos...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Dolorosamente humano

"A miséria da condição humana é tal, que a dor é seu sentimento mais vivo."
(Jean Lerond D'Alembert)

O que é que nos “faz” pessoas? Já ouvi falarem que a capacidade de escolher é que nos torna humanos. Pode até ser, mas D’Alembert está certo quando diz que a dor é o que nos faz ter consciência de que somos humanos. E eu tenho experimentado a pior de todas as dores: a de amor. Ou de cotovelo, sei lá. O fato é que semanas – pra não dizer meses – depois de terminar um relacionamento, eis que me dou conta que as feridas que eu acreditava cicatrizadas estão se revelando abertas. Algumas delas mais do que deveriam, por sinal. E aí vem o questionamento inevitável, se isso deveria ser assim mesmo, se não errei em terminar tudo, se há possibilidade de retorno.

A resposta é simples, direta e honesta: não sei. Porque um lado de mim traz boas lembranças do que já passou, mas outro lado traz as marcas das brigas, discussões e questionamentos sem noção que acabaram minando o relacionamento. Porque eu achei que já estava apaixonado por outro, que está apaixonado por mim. Porque fica aquela coisa doendo o tempo todo, em que a única coisa que dá vontade de fazer é chorar, e chorar, e chorar. Tanto que cheguei a pedir uma força pra lidar com a situação a uma amiga psicóloga, que de cara rechaçou: “Mas você sente saudades daquele cara neurótico que só brigava com você e discutia por qualquer coisa?”. É, olhando por esse lado, não há do que sentir falta. Mas aí ela fez a pergunta que acabou por desarmar aos dois: “Do que você gostava?”.

A resposta veio imediata: quando não estava atacado, era o cara mais carinhoso e amoroso do mundo.

É complicado ter que lidar com esse tipo de situação – nunca começamos relacionamentos (e isso vai desde simples amizades até um casamento) pensando no término deles. Pelo contrário, o que geralmente nos acompanha no desenvolvimento de uma relação são juras eternas (de amizade, de amor, de fidelidade), planos feitos em conjunto (de viagem, de baladas) e expectativas de ambos os lados. Antecipamos situações, desenhamos cenários... e no pensamento, criamos o conto de fadas perfeito. Aí damos de cara com a vida real – e toda a crueldade que é possível. E, ao término de qualquer coisa, encaramos as conseqüências: tristeza, mágoa, depressão, etc.

Mas por que insistimos tanto nisso? Será que já paramos pra pensar que muitas vezes o passado é boa lembrança/tempo tão feliz justamente porque é passado? Ao selecionarmos lembranças, inconscientemente acabamos filtrando todos os episódios negativos; lembramos da vitória na corrida, mas esquecemos os tropeções e os tombos. E foi nessa teia de pensamentos que eu caí, ao tentar entender tudo: enquanto o coração doía, o cérebro revia algumas das situações pelas quais passei.

No fim das contas, a conclusão a que cheguei foi nenhuma. Um lado meu pensa em voltar. O outro pensa em continuar sozinho. Nesse meio tempo, também estava pensando em me envolver com uma paquera que, na cama, sempre foi 100% - mas que eu não sei se nossa afinidade vai além disso. Outro lado (sim, somos mais multifacetados do que imaginamos) apenas sente saudades. E outro lado, o mais racional, se perde em questionamentos.

Sei que mesmo com todos os pensamentos, só consegui resolver a história do modo mais prosaico possível – dando um telefonema. Não acho que cheguei a um final definitivo, até porque isso é coisa pra mais alguns anos, no mínimo. Mas pelo menos (acho) recuperei o meu parceiro e amigo, ainda que alguns assuntos tenham que ser evitados a princípio. E consegui destruir algumas barreiras que eu mesmo havia criado, pra me proteger sabe Deus do quê. A dor, porém, não passou de todo; parte dela ainda está aqui, lembrando que só um ciclo terminou e que nada é definitivo.

Mas talvez isso seja necessário – para lembrar que, ainda bem, eu continuo sendo humano.